<BODY> philipinas

segunda-feira, março 13


CONVERSA DE SALÃO

Os longos cabelos de Marta Vebber, a esposa do prefeito de uma pequena cidade no Sul do Brasil, é secado com uma toalha. A rapidez do funcionário é tão grande que ela mal consegue ter controle sobre a própria cabeça.

- Cuidado, Kleber. Vamos devagar. Eu acabei de vir das minhas aplicações de botox - pede para o cabeleireiro, que está agitado como sempre.
- A senhora vai bem? Quais as novidades? - pergunta ele.
- Está confirmado. A Madonna toca na cidade ainda este ano.
- Pára tudo! - Kleber deixa a toalha cair no chão e põe as mãos na cintura.

Perplexo, dá duas voltas em torno das cadeiras do salão. Chega na geladeira, toma um copo d´água, olha para o teto, põe as mãos no peito, respira fundo e volta para Marta, que o espera de cabelos em pé.

- É sério, rapaz. Fui eu quem pedi ao meu marido. Ele esteve reunido ontem mesmo com um dos empresários dela. Tá tudo acertado. Primeiro ela vem para o Rio de Janeiro nos dias 29 de setembro e 30 de outubro, em seguida para Belo Horizonte e depois para cá.
- Mentira! Como a prefeitura tem dinheiro pra pagar isso? Não... É que, tipo assim... Desculpa a falta de jeito, mas é que não dá para acreditar nessa história, Dona Vebber.
- Nós já conseguimos o patrocínio. São de cinco operadoras de celular, quatro marcas de cerveja e duas empreiteiras.
- Meu pai do céu! Vai ser o evento do ano, da década, do milênio, do infinito em forma de música, alegria, paz, amor e jovialidade.
- Kleber, querido... Desta vez, eu quero a franja bem mais curta porque ela cresceu muito rápido desde a última vez.
- Espera. Quieta. Então a Madonna vai fazer vários shows no Brasil?
- Exatamente. Antes do espetáculo, ela vai almoçar conosco e nós iremos apresentar para ela o projeto Rua do Samba. Madonna irá ficar maravilhada e será convidada para a inauguração.
- A senhora quer mesmo que eu acredite?
- Ah! E o show vai ser de graça. Nas areias da praia.
- Tirem essa mulher daqui! Agora! Chamem o segurança! - grita o cabeleireiro.
- Kleber, não fale alto perto dos meus ouvidos. E vocês não têm segurança algum. Corta logo o meu cabelo que eu tenho uma reunião ainda hoje.
- Não consigo. Tô tremendo. Olha as minhas mãos. Conta mais. Ela vai trazer os filhos?
- Sim. Inclusive, ofereci para que eles ficassem em minha casa. Lá tem piscina, churrasqueira... A Lola vai adorar os livros de medicina que a gente tem na biblioteca e vai se dar muito bem com os meus filhos.

A tesoura acerta a jugular de Marta, que se levanta espantada, com as mãos para o alto, sem conseguir gritar. Ela tenta retirar o objeto do pescoço, mas cai ao tropeçar em uma das cadeiras.

A poça de sangue já se forma no chão. Os outros cabeleireiros fazem um escândalo. Os berros podem ser ouvidos na outra esquina. Um deles, com lágrimas nos olhos e com as mãos na boca para abafar os próprios gritos, pergunta para Kleber:

- Bicha do céu! Por que você fez isso?
- Mentira nesse salão a gente tá até acostumado. Tem todo dia. Mas essa vaca passou dos limites.

* Fonte (de inspiração): aqui.