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segunda-feira, outubro 13


Saindo do Acre

Rita não aceitava viver toda a sua vida naquela "cidadezinha nojenta", como mesmo dizia. Não queria ser uma menina do interior. Queria ganhar o mundo, ser cosmopolita, falar diversas línguas, ser uma profissional respeitada. E se empenhou para isso. Saiu do interior do Acre e arranjou um emprego em São Paulo. Lá, se formou em economia, pintou o cabelo de loiro, foi para Londres por dois anos e voltou para a capital paulista para administrar uma multinacional.

Era outra pessoa. Nunca mais usou chinelo. Nem foi comprar pão de bicicleta. Quando falava com a família por telefone, não entendia nada do que eles diziam: "Meu deus, esse sotaque é horroroso, mãe. Eu falava assim?"

O sucesso de Rita só não era bem desfrutado, pois não tinha com quem compartilhá-lo. Queria arranjar um namorado. Tinha que pensar em filhos. E em amor também. No ano seguinte, durante suas férias em Nova York, conheceu Eric quando saía do teatro. Depois de horas falando sobre a peça, o americano perguntou:

- Você mora onde?
- Estou hospedada. Estou aqui só de passagem.
- Ah, legal. Você é de onde?
- Brasil.
- Sério? Não parece que é de lá. Nunca imaginaria...

Foi amor à primeira vista. O gringo conseguiu ver o que a economista sempre tentou mostrar. Casaram-se no mês seguinte e foram morar na casa de Rita, no Morumbi. Eric odiou São Paulo: "É tudo sujo e feio". Foi levado ao Rio: "Muita bagunça, muito quente".

Nas férias, decidiram viajar para o Amazonas. Depois, visitariam a família de Rita: "Eric, não quero que você ria de nada. Sei que a cidade é horrorosa, mas respeite meus pais". Não foi preciso esforço algum. O gringo amou a cidadezinha no Acre. Não queria voltar para São Paulo. Se tivesse que sair dali, seria só para Nova York: "O ar é puro. As pessoas são verdadeiras. A paz mora aqui".

Rita voltou sozinha. Demitiu a secretária pelo sapato horroroso que ela usou na segunda-feira. Deu gritos durante a reunião e bateu com o carro. Quando perguntavam sobre o marido, dizia que tinha morrido no Acre, picado por uma cobra venenosa.

- Que horror, Rita! Meus pêsames.
- Pois é. Aquela região é cheia de animais perigosos. Minha mãe morreu atacada por um tigre, por exemplo. O governo de lá não toma conta direito... região triste e abandonada.